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Irving Penn II
ana
No post anterior sobre Irving Penn (http://homovisualis.com/2011/09/11/irving-penn/), terminei o texto com a deixa do espelho, que pretendo recuperar agora.
Perdi as contas de quantas vezes já foi dito que todo retrato é um autorretrato e que todo autorretrato pressupõe um espelho. Podemos ver muito do fotógrafo nos retratos que ele produz. Suas crenças, estados de espírito, o grau de envolvimento com o fotografado ou com o assunto como um todo, enfim, a sua forma de enxergar o mundo. Agora, o que acontece quando um fotógrafo fotografa outro fotógrafo? Pensando nessa questão, que parece muito simples a princípio, lembrei-me imediatamente dos dizeres de Andy Warhol:
Tenho certeza de que vou olhar no espelho e não vou ver nada. Os outros chamam-me espelho, mas quando um espelho olha para outro espelho, o que há para ver? (…) Alguns críticos chamam-me o Nada Personificado e isso não ajuda meu senso de existência. Então percebi que a própria existência não é nada e me senti melhor. Mas ainda estou obcecado com a idéia de olhar no espelho e não ver ninguém, nada.
E o que parecia simples se torna subitamente complexo: o que acontece quando colocamos um espelho na frente de outro espelho? Todos já fizemos isso alguma vez: os espelhos ficam se refletindo infinitamente. Reserve.
Mas, como tudo relacionado à imagem e à visão é sempre mais complexo do que podemos imaginar, pelo menos a primeira vista, invoco agora mais uma imagem produzida por Penn:

Irving Penn - Cecil Beaton with Nude, New York, 1946 – 240x184 mm – Gelatin Silver - © Irving Penn Foundation
Desta vez o retratado é Sir Cecil Walter Hardy Beaton, ou apenas Cecil Beaton (17/01/1904 – 18/01/1980), fotógrafo inglês de moda que trabalhou para Vogue, Vanity Fair, fotografou celebridades de Hollywood, a Família Real Britânica e também a II Grande Guerra, além de trabalhar com cenografia e figurino para teatro e cinema, entre outras atividades.
Agora, caros leitores, temos três fotógrafos inseridos na conversa isso sem contar com essa que vos escreve. Se eu entrar na contagem seremos quatro, e esse número me lembra uma passagem de Roland Barthes:
O ponto de encontro e de confronto entre quatro “personagens”: aquele que o retratado acredita ser; aquele que ele desejaria que os outros vissem nele; aquele que o fotógrafo acredita que ele seja; aquele de que o operador se serve para exibir a sua arte. Diante da objetiva, o indivíduo, ao mesmo tempo em que se imita, não deixa de experimentar uma sutil transformação de sujeito em objeto, colocando em crise a noção profunda de subjetividade.
Parece complicado, por isso farei uma pausa para assimilação das informações e no fechamento, que virá no próximo post, todos iremos perceber que isso é bem mais simples do que se pode imaginar.
ana
Conhece te a ti mesmo
Imago
Blade Runner – Tears in the rain
Vou falar sobre a minha cena favorita do filme, onde Rutger Hauer, o Replicante, e Harrison Ford, o Blade Runner, estão na chuva e Rutger Hauer tem a seguinte fala:
ana
“Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro, na comporta Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer”.
ana
Por volta de 2019, o planeta Terra está em total decadência. Os poucos habitantes vivem aglomerados em gigantescos arranha-céus. A engenharia genética se tornou uma as maiores indústrias criando os Replicantes, criaturas dotadas de extraordinária força e inteligência, praticamente indistinguíveis dos seres humanos. Eles possuem, no mínimo, a mesma inteligência dos seus gênios criadores. Eles são enviados para colônias interplanetárias e trabalham como escravos. Os Replicantes se rebelam e imediatamente são considerados ilegais. A orientação que os Blade Runners, os Caçadores de Andróides, têm é atirar para matar, a isso não se dá o nome de execução, mas sim aposentadoria.
ana
Os Replicantes são programados para viverem por quatro anos. Um grupo de cinco voltam à Terra para tentar encontrar uma forma de evitar a “morte”. Essa visão de futuro, que Ridley Scott teve em 1982, não se afasta da visão que temos ainda hoje. Vemos a genética avançando com suas descobertas, ora fascinantes, ora assustadoras. Ainda presenciamos a busca do homem pela eternidade, ou pelo menos uma forma de se adiar o fim pelo tempo que for possível.
ana
O filme mostra um planeta Terra obscuro, sem recursos naturais, onde todos os animais são produzidos artificialmente, a natureza já não existe. A cidade está repleta de pessoas que se aglomeram e vão sobrevivendo como podem. O lixo e a sujeira tomam conta das ruas. Prédios antigos e abandonados ampliam a idéia de decadência. Mesmo com esse cenário, ainda existe uma elite, que detém o dinheiro e o poder, levando uma vida mais confortável enquanto a maioria vive em condições subumanas.
ana
“Instrumento de comunicação, divindade, a imagem assemelha-se ou confunde-se com o que representa. Visualmente imitadora, pode enganar ou educar. Reflexo, pode levar ao conhecimento. A Sobrevivência, o Sagrado, a Morte, o Saber, a Verdade, a Arte, se tivermos um mínimo de memória, são os campos a que o simples termo ‘imagem’ nos vincula. Consciente ou não, essa história nos constitui e nos convida a abordar a imagem de uma maneira complexa, a atribuir-lhe espontaneamente poderes mágicos, vinculada a todos os nossos grandes mitos”. (Joly, 2005, pp. 19)
ana
Segundo a Bíblia, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, em Blade Runner o homem criou o Replicante, só que mais forte e mais inteligente, por isso eram programados para viver por apenas quatro anos. Ainda tinham a capacidade de experimentar emoções e sentimentos, adquirindo, dessa forma, mais alguns traços humanos. Justamente devido a essa capacidade se rebelaram, pois aprenderam a ter pensamentos próprios, a questionar o porquê de suas existências, eles queriam viver por mais tempo, aprender coisas que em apenas quatro anos são impossíveis de se absorver, assim passaram a ser caçados, uma vez que representavam uma grande ameaça.
ana
Durante vários períodos o homem sofreu e promoveu perseguições, devido a fatores como religião, política, idéias revolucionárias etc., a novidade sempre foi vista com desconfiança e ainda hoje vemos a tentativa de massificar a população, através de meios que induzem as pessoas à alienação, a uma forma uniformizada de pensamento, evitando dessa maneira qualquer tipo de embate que o questionamento possa trazer.
ana
“O que vemos é a pintura traduzida nos termos da nossa própria experiência. Conforme Bacon sugeriu, infelizmente (ou felizmente) só podemos ver aquilo que, em algum feitio ou forma, nós já vimos antes. Só podemos ver as coisas para as quais já possuímos imagens identificáveis, assim como só podemos ler em uma língua cuja sintaxe, gramática e vocabulário já conhecemos”. (Manguel, 2006, pp. 27)
ana
“Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam… Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva”. A humanização do andróide fica bem clara neste momento, Rutger está segurando uma pomba branca, que é a representação do espírito, ela é liberta no momento da sua “morte”. Uma vez que nós somos capazes de enxergar e reconhecer com mais facilidade aquilo que nós já conhecemos, com a alienação vemos a nossa bagagem de conhecimento ficar cada vez menor e uniformizada, e quanto menos conhecimento tivermos, menos seremos capazes de enxergar, e todo o saber estará se perdendo como lágrimas na chuva.
ana
ana





