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Homem x Morte
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Durante a sua história, o homem criou tantos subterfúgios tentando enganar a morte que acabou por enganar a si mesmo. Hoje ele se julga imortal e pensa que são todos assim, mas precisamos recordá-lo que a morte continua irreversível. Com essa lembrança, viva em sua memória, ele será capaz de pensar duas vezes antes de praticar qualquer ato que possa infligir a morte a outro ser.
Ana Paula Umeda – 10/10/2011
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Uma lição de amizade, tolerância, respeito e união
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Quem tem pets em casa sabe que a chance de momentos que devem ser registrados acontecer é muito grande, por isso um fotógrafo que se preze (não sou na maior parte do tempo esse cara) tem sempre a sua câmera à mão.
O Titi (calopsita) adora o Shiro (cachorro) e vice-versa. Sempre que o Titi chegava perto do Shiro ele tentava conversar com ele – Oi Titi! – dizia sem obter resposta. Obviamente o Shiro não sabe falar, mas correspondia ao cumprimento com o olhar e eu estou certa de que o Titi entendia. É incrível, mas o Titi é o único ser que podia chegar perto da tigela de ração do Shiro, quando ele estava comendo, e ainda roubar um grão sem que nada acontecesse, se eu chegasse perto levava uma latida daquelas. O Shiro também era responsável por não deixar o Titi muito saliente no quintal, sempre que ele ia dar as suas voltinhas Shiro tratava de colocá-lo pra dentro. Agora Titi está no viveiro construindo a sua família.
Sempre presenciava esses momentos, e desde então procurava manter a câmera sempre por perto. E nesse dia, providencialmente, consegui registrar essa demonstração de carinho, uma bela de uma lambida, como um bom Boxer sabe fazer. Também não consigo entender como algumas pessoas podem não gostar de animais, mas essa é outra história.
O que quero deixar clara é a lição que podemos tirar desse fato tão cotidiano, principalmente depois dos últimos acontecimentos, tão vergonhosos, que tomaram conta do país. Como dois seres tão diferentes podem viver tão bem? Como seres de espécies, tamanhos e naturezas tão diversas podem conviver em harmonia?
Essa lição todos nós deveríamos aprender: amizade, tolerância, respeito e união.
Se um Canis lupus familiaris e um Nymphicus hollandicus conseguiram, será que o Homo sapiens não conseguirá? Ou ele cederá o lugar, definitivamente, para o Homo demens?
“Surge, então, a face do homem escondido pelo conceito tranqüilizador e emoliente do sapiens. Trata-se de um ser de uma afetividade imensa e instável, que sorri, ri, chora, um ser ansioso e angustiado, um ser gozador, embriagado, extático, violento, furioso, amante, um ser invadido pelo imaginário, um ser que conhece a morte e não pode acreditar nela, um ser que segrega o mito e a magia, um ser possuído pelos espíritos e pelos deuses, um ser que se alimenta de ilusões e de quimeras, um ser subjetivo cujas relações com o mundo objetivo são sempre incertas, um ser submetido ao erro, ao devaneio, um ser híbrico que produz a desordem.”
Edgar Morin – O Paradigma Perdido
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It’s a world gone crazy
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Rangia os dentes. Se pudesse voar em seu pescoço torceria até virar uma linha. Pensava em cada maneira possível e imaginável de matá-lo. Esse pensamento não saía da cabeça. Faca, tiro, corda, veneno, pancadas na cabeça, trilho do trem, ônibus. O seu simples caminhar já era suficiente para trazer à tona toda ira e toda a raiva sufocada, sua voz um convite para a batalha.
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Respirava fundo, contava até dez, imaginava uma cachoeira e aos poucos a calma regressava. Claro que não valia à pena, suas atitudes eram dignas de pena. Mas como lidar com sentimentos tão fortes, tão urgentes e tão pungentes?
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Canalizar, ser capaz de transformar algo ruim em algo bom. Ser capaz de extrair, até dos momentos mais sombrios, a luz que terá o poder de afugentar as sombras. E foi então que veio a compreensão de um trecho de Santo Agostinho sobre o mal:
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“Se não convinha que Aquele que é bom permanecesse estéril de obras boas, não poderia Ele fazer desaparecer e aniquilar a matéria que era má, estabelecendo outra que fosse boa, donde criasse tudo? Não seria, pois, todo poderoso, se nada de bom pudesse criar sem a ajuda daquela matéria a que Ele mesmo não tinha dado a existência.” – Confissões
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E as sombras se foram.
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“It’s under my skin, but out of my hands
I’ll tear it apart but I won’t understand
I will not accept the Greatness of Man”
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Capturados por Bob Wolfenson
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Apreensões é o nome da exposição de Bob Wolfenson no Maria Antonia que retrata os objetos (inclusive animais) apreendidos nas operações da polícia. As imagens impressionam, e muito, não apenas pelas grandes dimensões e pela técnica refinadíssima, mas principalmente pelo seu conteúdo e possíveis leituras.
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Como nos explica o próprio Bob, “foi utilizado o sistema de varredura digital, ou seja, um fracionamento da cena no momento da tomada fotográfica para que a imagem final alcance uma definição alta, salvo nas fotos de animais, pelo fato de se moverem e impossibilitarem o uso dessa técnica”. Além da escolha do sistema mais adequado, outro fator de complicação foi a negociação com as autoridades para conseguir a autorização para entrar e fotografar os depósitos onde esses objetos são armazenados.
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O resultado: somos capturados e transportados para dentro dos depósitos.
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Carlos Nader, em seu texto sobre a exposição, escreveu sobre essa propriedade da fotografia que é justamente capturar, apreender:
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“Apreendemos aquilo que ele apreendeu do que foi apreendido. Apreendemos exponencialmente”
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Acredito nesse poder da fotografia, ela captura o objeto fotografado e o expectador, mas podemos identificar outro feito dessa exposição – que não busca funcionar como uma denúncia – ela tem a capacidade de traduzir estatísticas em imagens.
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Em consulta ao site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) obtive a seguinte informação:
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“O Sistema Nacional de Bens Apreendidos (SNBA) revela que os bens apreendidos no país já alcançaram o valor de R$ 1 bilhão. O sistema foi criado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para coordenar os registros de bens apreendidos por força de decisão judicial, em razão de casos como roubo, estelionato e tráfico de drogas, entre outros. Segundo o último balanço constante do cadastro, os bens apreendidos pela Justiça estadual equivalem a R$ 207,6 milhões. Já na Justiça Federal, as apreensões somam R$ 793,1 milhões.
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No total foram apreendidos 38,6 milhões de produtos e bens pela Justiça Federal e 4,4 milhões pela Justiça Estadual. Os dados dos tribunais de Justiça indicam a apreensão de 15 mil veículos, 642 mil computadores e acessórios e 665 mil armas e acessórios. Na Justiça Federal, o sistema aponta que foram retidos 1,3 milhão de computadores e acessórios, 1,1 milhão de aparelhos eletrônicos, 195 embarcações, 4 mil veículos e 92 mil animais”.
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São números alarmantes, mas que muitas vezes deixamos passar despercebidos. E é aí que as fotos de Bob Wolfenson mostram o seu potencial. Ao entrar na sala de exposição temos uma percepção visual, ainda que seja apenas da ponta do iceberg, das dimensões desses números. A escolha do grande formato com alta qualidade consegue nos levar até esses armazéns e nos fazer compreender a gravidade desse assunto. Os animais parecem nos encarar e armas parecem estar apontadas para nós.
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Como já mencionado, a exposição não possui esse caráter de denúncia, mas creio que de sensibilização. Ao visitar “Apreensões” é impossível não refletir sobre os problemas e conseqüências da nossa, utilizando Bauman, modernidade líquida.
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Centro Universitário Maria Antonia – USP
Rua Maria Antonia, 294 Vila Buarque
Tel: 11-3255 7182
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