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Polishop e a obsessão por tempo e espaço
Não é necessário passar muito tempo em frente à TV para ver os anúncios dos aparelhos milagrosos que prometem mais tempo e mais espaço.
Sim, esse parece ser o maior desejo dos habitantes da contemporaneidade, mais tempo para poder realizar, quando muito, a maior parte das suas atividades e mais espaço, para poder guardar todas as bugigangas que nos mandam comprar, com promessas de uma vida mais confortável, com mais liberdade para fazer o que se gosta.
Seria tudo lindo, perfeito se todas essas tranqueiras não se transformassem em verdadeiros elefantes brancos em nossas casas.
Recordo-me de uma passagem do livro “O Som da Montanha” de Yasunari Kawabata. A história se passa no Japão pós Segunda Guerra (mais ou menos entre 1951-1952), Shingo, o protagonista da história, um senhor já de idade ganha de sua nora um barbeador elétrico, novidade na época:
“- Ganhamos um ótimo brinquedo para o pai – disse Yassuko.
- Não é brinquedo não. É um instrumento útil da civilização. É um aparelho de precisão. Tem número de registro e carimbos dos responsáveis pela inspeção mecânica, regulagem e conclusão.”
O próximo passo foi justamente adquirir os demais eletrodomésticos vindos da “civilização”. Podemos ver que de lá para cá pouca coisa mudou…
Praticidades que nos garante mais espaço, muito importante quando moramos em caixinhas de fósforos que insistem em chamar de casa, e nos prometem mais tempo, tempo extra nem sempre bem aproveitado, como podemos verificar nas palavras de Andy Hargreaves:
“Em aeroportos e outros espaços públicos, pessoas com telefones celulares equipados com fones de ouvido ficam andando para lá e para cá, falando sozinhas em voz alta, como esquizofrênicos paranóicos, cegas ao ambiente ao seu redor. A introspecção é uma atitude em extinção. Defrontadas com momentos de solidão em seus carros, na rua ou nos caixas de supermercados, mais e mais pessoas deixam de se entregar a seus pensamentos para, em vez disso, verificarem as mensagens deixadas no celular em busca de algum fiapo de evidência de que alguém, em algum lugar, possa desejá-las ou precisar delas.”
ana
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Rain
Stormy Bringer
Blade Runner – Tears in the rain
Vou falar sobre a minha cena favorita do filme, onde Rutger Hauer, o Replicante, e Harrison Ford, o Blade Runner, estão na chuva e Rutger Hauer tem a seguinte fala:
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“Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro, na comporta Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer”.
ana
Por volta de 2019, o planeta Terra está em total decadência. Os poucos habitantes vivem aglomerados em gigantescos arranha-céus. A engenharia genética se tornou uma as maiores indústrias criando os Replicantes, criaturas dotadas de extraordinária força e inteligência, praticamente indistinguíveis dos seres humanos. Eles possuem, no mínimo, a mesma inteligência dos seus gênios criadores. Eles são enviados para colônias interplanetárias e trabalham como escravos. Os Replicantes se rebelam e imediatamente são considerados ilegais. A orientação que os Blade Runners, os Caçadores de Andróides, têm é atirar para matar, a isso não se dá o nome de execução, mas sim aposentadoria.
ana
Os Replicantes são programados para viverem por quatro anos. Um grupo de cinco voltam à Terra para tentar encontrar uma forma de evitar a “morte”. Essa visão de futuro, que Ridley Scott teve em 1982, não se afasta da visão que temos ainda hoje. Vemos a genética avançando com suas descobertas, ora fascinantes, ora assustadoras. Ainda presenciamos a busca do homem pela eternidade, ou pelo menos uma forma de se adiar o fim pelo tempo que for possível.
ana
O filme mostra um planeta Terra obscuro, sem recursos naturais, onde todos os animais são produzidos artificialmente, a natureza já não existe. A cidade está repleta de pessoas que se aglomeram e vão sobrevivendo como podem. O lixo e a sujeira tomam conta das ruas. Prédios antigos e abandonados ampliam a idéia de decadência. Mesmo com esse cenário, ainda existe uma elite, que detém o dinheiro e o poder, levando uma vida mais confortável enquanto a maioria vive em condições subumanas.
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“Instrumento de comunicação, divindade, a imagem assemelha-se ou confunde-se com o que representa. Visualmente imitadora, pode enganar ou educar. Reflexo, pode levar ao conhecimento. A Sobrevivência, o Sagrado, a Morte, o Saber, a Verdade, a Arte, se tivermos um mínimo de memória, são os campos a que o simples termo ‘imagem’ nos vincula. Consciente ou não, essa história nos constitui e nos convida a abordar a imagem de uma maneira complexa, a atribuir-lhe espontaneamente poderes mágicos, vinculada a todos os nossos grandes mitos”. (Joly, 2005, pp. 19)
ana
Segundo a Bíblia, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, em Blade Runner o homem criou o Replicante, só que mais forte e mais inteligente, por isso eram programados para viver por apenas quatro anos. Ainda tinham a capacidade de experimentar emoções e sentimentos, adquirindo, dessa forma, mais alguns traços humanos. Justamente devido a essa capacidade se rebelaram, pois aprenderam a ter pensamentos próprios, a questionar o porquê de suas existências, eles queriam viver por mais tempo, aprender coisas que em apenas quatro anos são impossíveis de se absorver, assim passaram a ser caçados, uma vez que representavam uma grande ameaça.
ana
Durante vários períodos o homem sofreu e promoveu perseguições, devido a fatores como religião, política, idéias revolucionárias etc., a novidade sempre foi vista com desconfiança e ainda hoje vemos a tentativa de massificar a população, através de meios que induzem as pessoas à alienação, a uma forma uniformizada de pensamento, evitando dessa maneira qualquer tipo de embate que o questionamento possa trazer.
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“O que vemos é a pintura traduzida nos termos da nossa própria experiência. Conforme Bacon sugeriu, infelizmente (ou felizmente) só podemos ver aquilo que, em algum feitio ou forma, nós já vimos antes. Só podemos ver as coisas para as quais já possuímos imagens identificáveis, assim como só podemos ler em uma língua cuja sintaxe, gramática e vocabulário já conhecemos”. (Manguel, 2006, pp. 27)
ana
“Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam… Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva”. A humanização do andróide fica bem clara neste momento, Rutger está segurando uma pomba branca, que é a representação do espírito, ela é liberta no momento da sua “morte”. Uma vez que nós somos capazes de enxergar e reconhecer com mais facilidade aquilo que nós já conhecemos, com a alienação vemos a nossa bagagem de conhecimento ficar cada vez menor e uniformizada, e quanto menos conhecimento tivermos, menos seremos capazes de enxergar, e todo o saber estará se perdendo como lágrimas na chuva.
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Estrutura
Chefe chato, trabalho ingrato, ônibus lotado, trânsito parado, time derrotado, cartão de crédito cortado, preços altos, restaurante ruim, fila na bilheteria, pia pingando, cão latindo, cerveja quente, piada sem graça, música babaca, toque de celular irritante, pisada no pé, político corrupto, povo conivente, salário mirrado, dente inflamado, geladeira congelada, chuveiro queimado, saco furado, guarda-chuva arrebentado, namoro virtual, chifre real, nome no Serasa, proibido fumar, proibido beber, proibido jogar, proibido comer e proibido reclamar.
Até onde a sua agüenta?
Crédito da imagem:
Foto: Sem título, 2009 – Ana Paula Umeda
Uma questão de perspectiva – Para Luciana Sanchez Mendes
Em Paraty, como qualquer mortal, estava a fazer as minhas fotos “standard”. Ao tirar uma foto de uma das ruas do centro histórico, minha amiga Luciana me diz: “Ana se eu fosse você viraria agora e tirava uma foto daquilo que está nas suas costas!” Viro, até certo ponto assustada, pois pensei que estava acontecendo algo estranho, e vejo a outra face da cidade, a parte crescida. Uma corrente que separa o novo do velho, ou talvez esteja protegendo o velho do novo, ou talvez o contrário.
Neste contexto, lembrei-me das palavras de Benjamin sobre o quadro de Paul Klee, Angelus Novus:
“O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.
O anjo que separa passado e futuro de Klee foi o anjo que me fez virar as costas para o passado e fotografar o futuro, mas o passado já estava registrado e logo esse futuro será passado e na verdade o que realmente fica registrado? Passado ou Futuro?
Créditos das imagens:
Fotos: Paraty, 2009 – Ana Paula Umeda
Quadro: Angelus Novus, 1920, Paul Klee
FDS em Paraty
Isn´t it ironic?
Estou temporariamente privada do toque…
Crédito da imagem:
Foto: Red Hot Chili Peppers, 2008 – Grzegorz Chorus
Tocar
Pesquisei “toque” no Google Imagens e para minha surpresa apareceram poucas imagens, nada muito forte. Decidi procurar por “touch” e qual não foi a minha decepção? Apareceram centenas de iPod´s, iPhones e outros i´s todos “touch”.
Pensei: ‘devo estar procurando com a palavra errada’. Resolvi utilizar a palavra “contato” e para meu total desespero apareceram uma série de @’s e atendentes de telemarketing.
Pergunta que não quer calar:
O que aconteceu com o contato, o toque?
Crédito da imagem:
Foto: Auto, 2009 – Ana Paula Umeda
Retalhos, linhas, botões e fitas…
Ontem passei na porta de um armarinho. Eles praticamente desapareceram, restam pouquíssimos. Quando era criança ficava encantada, perto da casa onde morava tinha um e minha mãe sempre ia lá. Eu ia com ela e adorava ver todas aquelas gavetinhas cheias de botões, linhas e fitas. Ficava inconformada, como era possível saber onde estava o que com tanta precisão, para mim era uma infinidade de gavetas e compartimentos, talvez pelo fato de ser criança aquilo fosse gigantesco para mim.
Quando pequena adorava costurar para as minhas Barbies. Fazia um monte de roupinhas e acessórios. Aproveitava os retalhos, restos de linhas e botões para “criar” as minhas peças, até arriscava alguma coisa no crochê, adorava. Algumas vezes aconteciam alguns acidentes. Não sei agora, mas antes as Barbies tinham um sério problema com a cabeça, se quebrasse a pecinha que a sustentava no pescoço, já era. E algumas vezes com as várias trocas de roupas isso acontecia.
O dia ontem parecia estar mais longo do que o de costume. Não via a hora de sair da minha janela.
Crédito da imagem:
Foto: Sem título, 2009 – Ana Paula Umeda
















